Quais adjetivos você usa para descrever a comida da sua mãe? Boa, gostosa, familiar, razoável, cheirosa, temperada, super acolhedora, sofisticação rústica, bom gosto despojado, natureba com malícia, maravilhosa, caseira e saborosa?
"Nuuu... Deliciosa, maravilhosa, saborosa, suculenta... A melhor comida do mundo, acho q é a única comida que não canso de comer... Hehehe"
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| @napu88 |
Fico feliz por vocês! Os que uso para a comida da minha mãe são: ruim, sem tempero, sem gosto, queimada. A sopa tinha água, não caldo. E em mim sempre ficou uma sensação de não ser acolhida nem pelo estômago, nem pelo colo, nem por palavras, ou por cafuné.
Dada a curiosidade, perguntei hoje à minha mãe o motivo dela não gostar de cozinhar, ela me respondeu: "Filha eu nem sabia cozinhar, aprendi com a sogra, depois que me casei. E só acho ruim quantas mulheres que deixam de fazer o que querem para cuidar dos filhos."
Que a nossa mãe nos amava, não tenho dúvidas. Ela sempre foi muito presente, apesar de não conseguir ser muito afetuosa. Sempre nos orientou para o trabalho. Lavavamos as janelas as 5horas da manhã. E hoje quando digo que não gosto de jogar, que tenho dificuldades para ficar ociosa, é difícil para quem está perto compreender. Preciso aprender a desfrutar da colheita. Devo me permitir sentir prazer.
Dormir com medo
Quando eu tinha uns oito anos, viajei com a minha tia e duas primas para visitar meu avô que morava sozinho no interior do Paraná. A casa era um sobrado antigo, de madeira, em que na parte de baixo tinha uma lanchonete que havia sido fechada em 1979, ano em que minha avó faleceu.
Meu avô sempre tomava o seu chimarrão com a água aquecida no fogão a lenha. Havia uma televisão preto e branco com botões. O banheiro era fora da casa, e dava medo das aranhas.
Havia muitos quartos, mas iríamos dormir as quatro no mesmo. Assim como minhas primas, eu também estava com medo, mas ao lado da minha tia eu não poderia dormir, pois as minhas primas já ocupavam seus lugares.
Foi semelhante quando a minha mãe se casou. E eu apenas com quatro anos era contra o casamento, pois sabia que se ela se casasse, eu perderia o calor que só sentia por dormir na mesma cama que ela.
Confesso que é dolorido relembrar algumas coisas, mas estou procurando olhar para a sombra, para essa dificuldade em preparar o alimento que ainda afeta o meu presente.
Apesar das dores, sou grata à minha história, à minha mãe, à minha tia, à nossa ancestralidade. Pelas estradas desse caminho, aprendi muito sobre afeto, sobre acolhimento, cuidado, compaixão, sensibilidade e solidariedade.