sábado, 26 de setembro de 2020

Quadrilha - Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Um olhar sobre o texto de Drummond
Sempre achei esse texto deprimente. O amor nunca era correspondido, e teve até suicídio.
Lili não amava ninguém e foi a única que se casou. Curioso não é mesmo? Me pergunto, o que seria amar, nesse caso? Seria desejar no outro o que não está resolvido dentro?

Será que o João, a Teresa, o Raimundo, a Maria e o Joaquim estavam alimentando suas próprias fantasias, provenientes da falta, ao invés de se fortalecerem como indivíduos? Por serem mulheres, em uma cultura patriarcal, como terá sido a criação de Teresa e de Maria?  Será que se reconheciam como sujeitos, ou aguardavam um homem para validá-las? 

Ainda que vivamos no ano de 2020, nossos pais, avós e ancestrais viveram em épocas, em que o divórcio era proibido. Só a partir de 1977, que as pessoas puderam optar por desfazer o contrato que prometia "o felizes para sempre".
É natural que muitas mulheres ainda sentirão muita pressão sobre si, pois foram criadas para serem boas, passivas e preparadas para exercer o cuidado familiar.

Aposto que Lili, na história acima, já se sentia merecedora, e conseguia reservar um tempo para atender as próprias necessidades, além de ter aprendido a fazer diversas coisas com o corpo, que permitiam a alegria entrar. Dançar, batucar, cantar, gingar, brincar, gargalhar, nadar, ler, escrever, tocar, fazer yoga, jogar capoeira, jogar diversos jogos, ouvir os pássaros, deitar na grama, fazer amor com o mar, tomar sol, perfumar o lar com incenso, acender as suas velas, meditar, ouvir, agradecer e fazer nada também, se assim o desejasse.

Espinosa nos recomenda apostar nos prazeres difíceis, como aprender uma nova habilidade, um novo hobby e não ser escravo dos prazeres fáceis como comer, beber, fumar, ver TV, fazer sexo... Segundo ele, o prazer no corpo, é prazer na alma. Surge então, a sensação da plenitude, reduzindo os espaços para o ódio. Aposto que a Lili tinha também um vibrador, pois ele é um super aliado, nas explorações das sensações do corpo e do fazer amor consigo mesma.

Nesse poema, um dos três homens, tirou a própria vida. A masculinidade tóxica também silencia o choro dos homens. Tentando ser sempre fortes e provar que são machos, muitos homens se explodem. Desejo que tenhamos sabedoria, para lidarmos com os desafios do momento presente. Que possamos esvaziar a nossa bacia de pedras, para a luz entrar, pois a fonte da luz não cessa, apenas precisamos ter espaço dentro.
Respira.🌺
Rubiamara

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