quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Sucinto

A vida não faz nenhum sentido.
Silêncio 
Silencia
Si len ci AR
Respira 1 2 3.
Solta 1 2 3 4 5 6.
Espaço.

Yanomar

Observo as gigantescas ondas do mar.
Retorna,
Cresce com infinitos,
E explode.

O movimento,
Sempre diferente,
E inimterrupto.

"Debaixo d'água ficaria para sempre longe dessa toda essa gente pra sempre no fundo do mar.
Mas tinha que respirar,
Todo dia."


Era confortável estar nas suas águas quentinha. Me sentia amparada, acolhida e segura. Pela primeira vez, sentia não ser um peso. Foram longos momentos de se fortalecer, um na presença do outro.
Muitas curas e muitas liberações foram possíveis.
No movimento dos dias, procuramos dar conta dos nossos desafios. Tem dias, que não passam de marolas. Devagar. Sem vento ou muitas emoções. E o processo é aceitar a vida como ela É.
Respira.🌬
Sinto muito. Me perdoa. Te amo. Sou grato.

Trecho da música Debaixo d'água 
 Maria Bethânia 

sábado, 26 de setembro de 2020

Quadrilha - Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Um olhar sobre o texto de Drummond
Sempre achei esse texto deprimente. O amor nunca era correspondido, e teve até suicídio.
Lili não amava ninguém e foi a única que se casou. Curioso não é mesmo? Me pergunto, o que seria amar, nesse caso? Seria desejar no outro o que não está resolvido dentro?

Será que o João, a Teresa, o Raimundo, a Maria e o Joaquim estavam alimentando suas próprias fantasias, provenientes da falta, ao invés de se fortalecerem como indivíduos? Por serem mulheres, em uma cultura patriarcal, como terá sido a criação de Teresa e de Maria?  Será que se reconheciam como sujeitos, ou aguardavam um homem para validá-las? 

Ainda que vivamos no ano de 2020, nossos pais, avós e ancestrais viveram em épocas, em que o divórcio era proibido. Só a partir de 1977, que as pessoas puderam optar por desfazer o contrato que prometia "o felizes para sempre".
É natural que muitas mulheres ainda sentirão muita pressão sobre si, pois foram criadas para serem boas, passivas e preparadas para exercer o cuidado familiar.

Aposto que Lili, na história acima, já se sentia merecedora, e conseguia reservar um tempo para atender as próprias necessidades, além de ter aprendido a fazer diversas coisas com o corpo, que permitiam a alegria entrar. Dançar, batucar, cantar, gingar, brincar, gargalhar, nadar, ler, escrever, tocar, fazer yoga, jogar capoeira, jogar diversos jogos, ouvir os pássaros, deitar na grama, fazer amor com o mar, tomar sol, perfumar o lar com incenso, acender as suas velas, meditar, ouvir, agradecer e fazer nada também, se assim o desejasse.

Espinosa nos recomenda apostar nos prazeres difíceis, como aprender uma nova habilidade, um novo hobby e não ser escravo dos prazeres fáceis como comer, beber, fumar, ver TV, fazer sexo... Segundo ele, o prazer no corpo, é prazer na alma. Surge então, a sensação da plenitude, reduzindo os espaços para o ódio. Aposto que a Lili tinha também um vibrador, pois ele é um super aliado, nas explorações das sensações do corpo e do fazer amor consigo mesma.

Nesse poema, um dos três homens, tirou a própria vida. A masculinidade tóxica também silencia o choro dos homens. Tentando ser sempre fortes e provar que são machos, muitos homens se explodem. Desejo que tenhamos sabedoria, para lidarmos com os desafios do momento presente. Que possamos esvaziar a nossa bacia de pedras, para a luz entrar, pois a fonte da luz não cessa, apenas precisamos ter espaço dentro.
Respira.🌺
Rubiamara

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

A peneira da existência

Há alguns anos, não tenho prazer na comida. Não gosto de cozinhar, e é inviável comer fora todos os dias. Então, faço sempre o mesmo: feijão e arroz. Deixo o feijão de molho, de um dia para o outro, cozinho na panela de pressão e coloco os temperos. O arroz é mais rápido. Congelo metade do feijão cozido. Sinto muita alegria ao perceber que tenho comida para a semana toda.

Quando chega a hora do almoço, costumo ficar mais triste, e sempre torço para que tenha sobrado um pouco da janta da noite anterior. Olho no relógio, e já é meio dia. Decido varrer a casa, dobrar a roupa e fazer qualquer coisa que não seja cozinhar, com a esperança que brote algo para eu comer. "Acho que hoje não vai rolar almoço, vou colocar o feijão de molho."

Sinto vergonha em falar isso, pois sei que tem pessoas que passam fome. Um dia comentei com um amigo e ele me disse: "Mas não é porque a vida do outro está ruim, que a minha melhora!" É muito importante sermos gentis com as nossas próprias dificuldades. Apesar da minha relação com a comida não ser boa, reconheço os meus avanços e me parabenizo. Seguimos!🌺

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

A criança suplente da não relação sexual dos pais

Sufocamento x Cuidado

O sintoma (o que a criança apresenta), decorre da subjetivação da mãe, quando não tem uma mediação na função do pai. Quando ele não separa a criança da mãe e diz: "não fique embaixo da asa da mãe, vá brincar, vá ter a sua vida." Essa situação, segundo Lacan, deixa a criança exposta a todas as capturas fantasisticas da mãe, satura a mãe, deixa ela se sentir plena. A criança dá à mãe o que o homem não dá. Muitas vezes, esta criança se tornará um adulto infantilizado.
A tarefa da psicanálise, nesse caso, é fazer o que o pai não fez.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Às minhas amigas, pós 30.

Aniversario
Depois dos trinta,
a gente se sente;
Mais autorizada a cuidar de si,
Mais independente,
Mais livre para;
Voar,
Curtir a própria companhia,
Aceitar o próprio corpo,
Gozar,
Sentir a própria vibração,
Gargalhar sem restrições,
Viver a fantasia,
As próprias regras,
Celebrar as vitórias,
Rir de si mesma,
Se autocuidar.
Se mimar.
Se maternar.

Conversar com as irmãs é empoderador.
A gente compartilha,
Confia,
Se escuta, 
É espelho,
Colo,
E fonte restauradora.

Dedico este escrito às minhas amigas,
Que também se buscam,
E que,
Nada encontrando no deserto, 
tem a coragem de cavar a areia e ir pra dentro.
Momento de pegar na mão e
Olhar no espelho da existência.
Enfrentar luz e sombra.

Sou feliz por fazer parte,
De uma rede de apoio super potente.
A coragem de vocês me inspira.
Gratidão meninas!
Rubiamara


segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Assinar com o polegar

Aprender a ler na década de 50 no Brasil, era privilégio. Lembro de uma vez na infância, eu querer mostrar o boletim para o meu avô e minha mãe sussurrar para eu não fazer isso, pois ele não sabia ler. 

Minha avó também assinava com tinta no dedo. Ela era dessas mulheres fortes que admiramos! Negra, mãe de cinco filhos, fazia artesanatos, pintava panos de prato, cultivava horta, participava do grupo da igreja, sabia todas as músicas.  Eu ia com ela nas missas e aprendi a cantarolar nessa época. Sempre me perguntam como sei tanta música. Tive o privilégio de aprender com uma cantaroladora profissional. Ela aprendia no ouvido mesmo. Imagina se soubesse ler!!!

Como o meu feminismo cura a minha avó? Honro toda a sua grandeza vó Maria (vó Bia). Gratidão pela sua Força e pelo seu exemplo de humanidade e de humildade. Sempre cuidando de todos nós. Cozinhando aquela comida maravilhosa e fazendo a gente comer até o último grão, daquele feijão que minha mãe não conseguia copiar. Fazendo aquele pão tão maciozinho, com tanto amor. Ah! Quanta saudade vozinha. E este mês, fazem 8 anos que a senhora fez a sua passagem, deixando muitas saudades. Como posso honrar sua presença? Gratidão meus avós Maria de Farias e Geraldo de Farias. 



sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Amarelinha

Amarelinha

Sinal do intervalo. Crianças no pátio formando espontaneamente uma fila. Havia algo desenhado no chão e cada criança aguardava a sua vez para brincar. O desafio era pular com uma perna e depois com as duas, e assim sucessivamente, até chegar ao céu. Trabalhavam equilíbrio, velocidade, coordenação motora, socialização e se divertiam muito.

Cada criança lançava a pedra sobre o desenho, para determinar o espaco que não poderia ser pisado, chamado também de "espaço vazio".

      - Concentra e já!, - torciam. 

Quando tinham que ficar muito tempo em uma perna só, como por exemplo, se a bendita da pedra caísse no número dois, teria que pular nos números um, três e quatro, só pra depois então, poder pisar no cinco e no seis juntos. Ufa! Aumentava-se o cansaço físico, mas as crianças sabiam que era fundamental respeitar esse espaço. Desde pequenos aprendiam, que o vazio fazia parte do jogo, e era mais fácil suportar sua existência na presença uns dos outros. Depois de cumprir todas as regras, chegava-se ao céu. E como era bom sentir que vivía-se plenamente aquele céu. Só não entendiam como aqueles vinte minutos passavam tão rápido. 



O VAZIO DA AMARELINHA

Todos nós sentimos, de vez em quando, uma sensação de vazio. Seja de fome, de disposição, de saudade ou de solidão mesmo.

É um grande desafio viver com a sensação da falta. Cláudio Thebas, no livro "O Palhaço e o Psicanalista", fala sobre a importância do brincar. Ele afirma que brincar é realizar um percurso juntos. Ele lembra da brincadeira de esconde-esconde, em que a pessoa se espremia atrás da pilastra, em conexão com tudo à sua volta. "Brincar envolve também, ficar esperando na estação, ficar perdido sem saber para onde ir, tropeçar e perder as malas...", - lembra o autor.

No texto "Amarelinha", a pedra  tem a função de sinalizar o vazio. Geralmente o vazio desestabiliza, então procuramos coisas para preenchê-lo  Com o passar do tempo, com autoconhecimento, e análise principalmente, a gente vai falando sobre as nossas dores e nos curando. Passamos a entender que o vazio faz parte do jogo (e da vida) e não se desequilibra com tanta facilidade. Aprende-se a pular com uma perna só, equilibrando, respirando, e vivendo a presença. Se esvazia, para ter mais momentos de qualidade e maior leveza.

Acredito que deveríamos ser mais incentivados a BRINCAR. Talvez conseguíssemos sustentar melhor o vazio. Desejo que esse texto possa colaborar um pouco com o vazio de vocês!

Gratidão 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Inflamações

Ainda tem o chá de ontem. Chá de camomila faz bem para a pele, pensei. Minutos após esse pensamento, me vejo com o algodão umedecido passando no rosto. Foi bonito presenciar esse ato de autocuidado entre eu e meu corpo.

Meu rosto sempre teve espinhas e cravos, o que era motivo para alguns familiares ficarem bastante tempo as espremendo. Os furos das orelhas sempre inflamavam. Me é familiar ter sempre algum buraco no rosto vazando.

Quando Freud pergunta: qual é a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?, acredito que ele queria saber, qual é o ganho em não cuidar das próprias inflamações, por exemplo. Talvez porque eu queria acessar um lugar de presença, de atenção, de colo, de ter a sensação de ser cuidada, que acontecia quando as espinhas eram espremidas. Resistência a amadurecer e assumir o protagonismo da própria vida.

Admira a beleza

Admira a beleza, Defende a verdade, Venera a nobreza, Escolhe a bondade! Assim é que o homem Será conduzido, Às metas na vida; Aos retos cam...