terça-feira, 16 de junho de 2020

Memórias de mãe



Hazu

O simples fato de ter que afastar um cachorro, que cheirava a minha, foi o suficiente para me trazer uma memória dolorida, de repressão do meu desejo. 
Aos 17 anos, eu gostava de um menino,  mas meus pais não deixavam eu me aproximar dele. Minha tia dizia: beija em cima, esquenta em baixo. 
Até nos raros passeios de escola, minha mãe ia junto, ou mandava alguém ir. Nunca sozinha, era a regra.

O grêmio da escola promovia festas e eu sempre queria ir, mas NUNCA podia, porque morávamos em um bairro violento. Uma vez, aos 15anos, minha vizinha convenceu minha mãe a deixar eu e a filha dela irmos na festa. Minha mãe me autorizou, com a condição de que eu fosse para casa, quando chegasse. Não deixou eu dormir lá. Aceitei.
Quando cheguei, ela estava muito braba, meu irmão com três anos chorava. Ela entrou no quarto e disse: "Você não queria festa, festa, festa? Agora faz ele fechar a boca!" Deixou ele na minha cama e saiu. Ele dormiu comigo naquela noite, devia estar com frio.

Nos passeios de escola, tínhamos que levar algo para comer. Eu sempre voltava com o bolo intacto. Acho que minha mãe fazia só por obrigação. Não ia cortado, nem com cobertura. Comíamos o dos outros.

Pode parecer que reuni aqui apenas coisas difíceis para contar. Essas foram algumas memórias que brotaram nas últimas horas, sem esforço. Hoje, observo que cada elemento desse, me faz a mulher que Sou.
Essas histórias me compõem. Eram poucas balas para acertar o alvo e ir para um lugar de escolha. E o papel de nos alertar, minha mãe fez muito bem. Ela dizia que nos treinava para a vida, que nada nos abalaria quando chegássemos lá fora.
E foi bem assim.
Trabalhei em um mercado, durante mais de um ano. Eram seis dias na semana trabalhados e uma folga, e quando eu tinha o domingo do mês livre, eu perguntava se alguém queria trocar, porque eu preferia trabalhar. 
Qualquer lugar era melhor do que a minha casa, pois lá nunca paravamos de trabalhar, e no mercado eu estaria trabalhando também, mas com a vantagem de ver pessoas e podia escolher o que comer.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Pai

Pai,
Amo tanto você que nem consigo imaginar te chamar de padrasto. Jamais!
Você me registrou. Teu nome levo pra sempre, no documento e no coração.
Já faz uns dias, que senti de te escrever uma carta de gratidão. No mês do meu aniversário, eu viro uma maquininha de escrever.
E então começou a música pequeno burguês, do Martinho da Vila:
"Felicidade, passei no vestibular,
Mas a faculdade é particular..."

Tínhamos um cd do Martinho da Vila, e sempre me identifiquei com essa música.
Quero te agradecer pai.
Pelo seu esforço, para não faltar comida.
Por todos esses anos aguentando firme.
Seu trabalho, os ônibus, a superlotação.
E ainda construía a nossa casa e
De todos familiares e amigos.

Gratidão por ter feito a minha segurança na volta das aulas da faculdade a noite.
A gente voltava andando por 30 minutos, às vezes embaixo de chuva.
E você nunca reclamou.
Sou grata ao tio Flávio também,
Que quando você não podia, ele ia.

Lembro de quando você fazia o supletivo e ficávamos fazendo aquelas lições até uma ou duas da manhã.
E no dia seguinte as seis, você já estava no ônibus.
Meu pai sempre foi assim. Dizia que seu nome era trabalho, e o sobrenome, hora extra.

Se eu estudei, 
Se hoje eu moro em um lugar maravilhoso,
Você, com certeza pai,
Contribuiu nessa minha trajetória.
MUITO OBRIGADA!!!
GRATIDÃO!!!

Celebro e honro muito a sua vida pai.
Gratidão por me ensinar sobre humildade, 
Sobre a importância do trabalho,
Sobre lealdade, 
Sobre família,
Sobre o silêncio.

Te admiro muito e sinto saudades.
Um forte abraço.
Rubiamara


quarta-feira, 10 de junho de 2020

Sobre os próprios pés

Minha ancestralidade o mar carregou.
Apesar do medo, tenho vontade de sentir suas águas.
Desejo respirar a brisa, sentir o calor, o cheiro e a plenitude desse lugar.

Descalço o pé direito e o coloco na areia. Enquanto o outro calçado me firma no presente.
Me ampara.
Meus pés já estiveram com a outra pessoa.
Celebro eu já sentir a areia.
Tão fina, macia, úmida e movediça.

Observo...
Continuo a observar...
2020 sou meu próprio apoio.
Me amo e me aceito, profunda e completamente.

Ereta,
Desejo conectar corpo, mente e coração.
Mas para entrar no mar,
É necessário fôlego,
Ancorar o barco.
É preciso intenção.

Já sei gostar de companhia.

Reconheço que sou muito corajosa.
E plenamente capaz.
Hoje dei férias para as minhas pulsões.
Escolho me tratar melhor.
Caramba, eu estou de quarentena!
2017

terça-feira, 9 de junho de 2020

Masculinidade tóxica

Sob a luz da vela escrevo.
Sim, foi violência.
Não procuro culpados. Preciso sim dar voz a essa angústia, que até ontem não tinha nome. Reconhecer a VIOLÊNCIA que testemunho na minha família.
Quebrar o seu brinquedo, jogar a televisão contra o muro, dar um soco no meio do fogão após ele ter sido consertado, ter as janelas da casa quebradas, ter as roupas rasgadas.
Silenciamento.
Silenciado.
Pai, negro, trabalhador, de poucas palavras.
Sim, a masculinidade é tóxica. Não ser permitido aos homens falar sobre seus sentimentos, decepções, expectativas e angústias, imagino que vá sufocando.
Eu sempre dizia, pelo menos ele nunca descarregou a raiva em nós, mas ainda assim, ver suas coisas sendo destruídas, também é violência.
(...)
Chega de violência! Precisamos construir um novo caminhar.

domingo, 7 de junho de 2020

Sem sombrancelha

Já faz tempo que me incomodo com as minhas sobrancelhas. A do olho direito é irregular. E nunca consigo deixar as duas semelhantes. 
Hoje foi o dia que me irritei e raspei toda. E após tirar todos os pêlos, enxerguei uma cicatriz. Lembrei do acidente aos seis anos de idade, em que por pouco não cai dentro da piscina de cal queimando.
Então sim, a minha sobrancelha irregular é um lembrete ao meu corpo, de que tenho um anjo da guarda muito forte, rsrs.
E você, já pensou sobre as suas "imperfeições"?

O sumiço do cadáver

Eu devia ter uns dez anos, quando o nosso cachorrinho recém chegado morreu. Chegando da escola pouco depois do meio dia, perguntei pelo cachorrinho. Ouvi dizer que ele tinha morrido porque ficou a manhã toda no sol.
"-Ficou no sol, morreu e já foi enterrado?" - me perguntava.
...
Desolada, triste e não acreditando nessa história, perguntei pro meu irmão, com quatro anos na época, onde o cachorro havia sido enterrado, e fui lá desenterrar, sem os adultos verem.
Em um mix de medo, e de tristeza, comecei a cavar mais ou menos onde ele mostrou, e aos primeiros sinais dos pelos na terra, saí correndo e desisti da despedida.

Isso me fez lembrar da nossa desafiadora tarefa de aceitar os ciclos. Aprender a se despedir com respeito e gratidão.
Não é a primeira vez que lembro dessa história. Na verdade, toda vez que minhas cachorras ficam cheirando um local específico da grama, fico pensando que talvez ali também esteja o cadáver de algum cachorro.
Eu vejo você. Agora pode ir.🙏

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Parcerias da vida

Camila,
Mulher, bruxa,
Índia, ama viver pintada,
E pelada.
Dona de uma libido,
De uma energia de criação,
E de uma personalidade forte.
Dançarina de forró,
Fotógrafa dos detalhes.
Das flores, das folhas, dos pássaros.
Dona das palavras, dos sentimentos.
Professora, mestra e tantas outras coisas.

Camila é,
O chazinho do cuidado,
A sopa da força.
O bolo, o pão.
A passara do irmão.

Sinto que muito do meu transbordar,
tem relação com a sua potência.

Saudade de você, minha deusa inspiradora.
Amo você!😍
Gratidão

Admira a beleza

Admira a beleza, Defende a verdade, Venera a nobreza, Escolhe a bondade! Assim é que o homem Será conduzido, Às metas na vida; Aos retos cam...